Reduzir os custos sem comprometer a qualidade nem a conformidade regulamentar constitui um desafio permanente para a indústria farmacêutica. Na conceção de uma unidade de produção em conformidade com as GMP (Boas Práticas de Fabrico), nomeadamente no domínio em rápida expansão das terapias inovadoras, como as CAR-T, é essencial compreender bem a relação entre CAPEX e OPEX para tomar decisões estratégicas adequadas.
Este artigo apresenta estes dois conceitos e o seu impacto nas decisões de conceção, com especial enfoque na comparação entre os modelos de fabrico aberto e fechado aplicados às terapias inovadoras, bem como nas respetivas implicações económicas a curto e a longo prazo.
O que são CAPEX e OPEX numa unidade farmacêutica?
- CAPEX (Capital Expenditure): investimento inicial necessário para conceber, construir e validar uma instalação. Inclui, nomeadamente, os trabalhos de construção, os equipamentos, a automação, os sistemas de tratamento de ar e climatização, bem como as utilidades industriais.
- OPEX (Operational Expenditure): custos associados à operação contínua da unidade: energia, pessoal, manutenção, peças de substituição, validações periódicas, limpeza, formação e custos indiretos.
Reduzir o CAPEX pode parecer interessante nas fases iniciais de um projeto. No entanto, esta poupança inicial traduz-se frequentemente num aumento desproporcionado do OPEX, com impacto direto na rentabilidade global da instalação.
Alguns exemplos simples permitem ilustrar esta diferença:
- Optar por equipamentos menos dispendiosos, mas também menos eficientes, permite reduzir o CAPEX, mas implica um maior consumo energético e operações de manutenção mais frequentes.
- Instalar equipamentos sem antecipar os acessos e os percursos necessários para a sua manutenção pode resultar em desmontagens dispendiosas ou paragens prolongadas.
Este tipo de decisões técnicas, quando tomadas sem uma visão global do ciclo de vida da instalação, compromete a sua eficiência futura.
O caso das terapias inovadoras: dois modelos, duas estratégias
Para o fabrico de terapias inovadoras, como as CAR-T, as terapias génicas ou celulares, são atualmente consideradas duas abordagens de conceção GMP: o modelo aberto e o modelo fechado.
O modelo aberto baseia-se numa produção realizada diretamente em salas classificadas, com intervenções manuais em ambientes com um elevado nível de limpeza. O pessoal e os materiais devem cumprir procedimentos de acesso rigorosos. Esta abordagem exige grandes áreas classificadas e um controlo ambiental reforçado devido à exposição direta do produto ao ambiente envolvente.
Em contrapartida, o modelo fechado baseia-se na utilização de isoladores ou sistemas de contenção que separam o produto do ambiente envolvente, permitindo trabalhar em salas com uma classificação inferior. As operações são realizadas dentro de um sistema técnico fechado, o que reduz os requisitos ao nível das infraestruturas, bem como a exposição do processo ao risco microbiológico.
Ambos os modelos são perfeitamente viáveis, mas o seu impacto no CAPEX e no OPEX é significativamente diferente.
Imagem: Litek Pharma
Modelo aberto
- As operações são realizadas diretamente em salas classificadas de grau B e incluem, em alguns casos, zonas de grau A, precedidas por uma sequência de salas de graus D e C, em conformidade com os requisitos GMP relativos à entrada progressiva do pessoal e à redução da carga microbiológica. A intervenção humana ocorre na zona com o nível de classificação mais elevado.
- É necessária uma sequência de vestiários em cascata, com várias mudanças de vestuário, cobre-sapatos, luvas, máscaras e EPI.
- As UTA (unidades de tratamento de ar) devem funcionar com perdas de carga de filtração mais elevadas e tratar caudais de ar superiores, de modo a cumprir os requisitos das classificações mais exigentes. Isto traduz-se num aumento do consumo energético e numa maior exigência sobre o sistema de tratamento de ar.
- Maior potência térmica e OPEX mais elevado para a produção de frio e calor.
- Elevada dependência do pessoal operacional e validações ambientais mais frequentes.
Implicações económicas estimadas:
- O investimento inicial (CAPEX) é geralmente mais baixo em determinadas rubricas, nomeadamente porque não é necessário adquirir equipamentos fechados especializados.
- Em contrapartida, os custos anuais de operação (OPEX) podem ser até 60% mais elevados do que num modelo fechado, devido ao consumo energético, à utilização intensiva de consumíveis e às necessidades de pessoal.
Modelo fechado
- As manipulações são realizadas em isoladores ou sistemas fechados, instalados em salas de grau D ou, em alguns casos, de grau C.
- Os fluxos de pessoal nas salas são consideravelmente reduzidos.
- O número de vestiários e de mudanças de vestuário é reduzido.
- As UTA têm dimensões mais reduzidas e não necessitam de compensar perdas de carga tão elevadas.
- As áreas classificadas são menores e os requisitos de validação ambiental são reduzidos.
Implicações económicas estimadas:
- O CAPEX pode aumentar entre 15% e 20% devido à aquisição de isoladores e tecnologias especializadas.
- Em contrapartida, o OPEX diminui significativamente: os consumíveis por lote podem ser reduzidos até 90%, enquanto o consumo energético global e as necessidades de pessoal também diminuem de forma significativa.
Quais são os principais fatores de OPEX num modelo aberto?
- Elevado consumo de consumíveis por lote: vestuário, consumíveis de utilização única e validações associadas representam uma parte considerável dos custos.
- Mais pessoal operacional: um maior número de pessoas em sala implica mais formação, um risco acrescido de erro humano e maiores despesas com EPI.
- Maior consumo energético: UTA sobredimensionadas, grupos frigoríficos mais potentes e validações mais exigentes devido aos requisitos do grau B.
Estes fatores não significam que o modelo aberto seja menos adequado do que o modelo fechado. Refletem simplesmente uma estrutura de custos operacionais diferente. Dependendo do tipo de produção, da rotação do pessoal, do número de lotes e de outros parâmetros, um ou outro modelo poderá ser mais adequado. O equilíbrio entre CAPEX e OPEX deve, por isso, ser analisado caso a caso, de modo a determinar a solução mais adequada à estratégia do cliente.
Conclusão: o ROI como critério de análise para as terapias inovadoras
Em projetos nos quais cada lote pode corresponder a um tratamento único e crítico, como acontece nas terapias inovadoras, a conceção da instalação tem um impacto direto na sustentabilidade da sua operação. Por esse motivo, para além do custo de investimento (CAPEX) ou de operação (OPEX), é pertinente adotar uma abordagem mais abrangente que integre o retorno do investimento (ROI).
O ROI permite comparar os dois modelos — aberto e fechado — numa perspetiva global. Pode ser expresso da seguinte forma:
ROI = (Poupanças operacionais + Ganhos associados à eficiência / conformidade) / Investimento inicial
Esta análise não tem como objetivo determinar que um modelo é superior ao outro, mas fornecer ao cliente os elementos necessários para tomar uma decisão em função da sua realidade produtiva, do seu horizonte de operação, do número de lotes produzidos anualmente ou ainda da disponibilidade de pessoal qualificado.
Em suma, não existe uma solução universal. O essencial é considerar todos os fatores — CAPEX, OPEX e ROI — e realizar uma análise estratégica com base nos objetivos específicos do projeto.
Em projetos nos quais cada lote pode representar um tratamento único e crítico, como no domínio das terapias inovadoras, a conceção da instalação influencia diretamente a sustentabilidade da sua operação.
O modelo fechado exige um investimento inicial mais elevado, mas permite uma operação mais eficiente, mais segura e mais facilmente escalável. O seu retorno do investimento (ROI) justifica-se não apenas do ponto de vista económico, mas também regulamentar e operacional.
Por outro lado, o modelo aberto pode apresentar um CAPEX atrativo, mas limitar a eficiência e a capacidade de expansão da instalação a médio prazo.
Conceber com uma visão baseada no ROI permite alinhar as decisões de engenharia com os objetivos estratégicos da empresa. E, no setor das terapias inovadoras, é precisamente isso que faz a diferença.